AS MONARETAS DE CAMOCIM
No
final da década de 60, precisamente em 1969 do século 20, surgiam no mundo às
bicicletas Monareta do longínquo continente europeu. A Caloi, a Monark despontou
com um tipo peculiar de bicicleta para adolescentes, que na verdade, se tornou
uma febre mundial. Ora, em Camocim a meninada já comprava as revistas que eram
vendidas ali na mais conhecida Banca de Revistas na terrinha dos peixes. A do
nosso amigo Edmundo Fontenelle, (Biscoitinho) marido da Dona Marizete Fontenelle que era
pai da nossa amiga Jacqueline Fontenelle. Ficava ali na Rua Engenheiro Privat
já próximo da praça da estação. A meninada ia lá comprar as boas revistas em
quadrinhos do Walt Disney. Mickey Mouse, Pato Donald, Tio Patinhas e também, a
do Brucutu, Marinheiro Popeye, Mônica e Cebolinha. Tinha ainda os almanaques de
figurinhas que foi um sucesso à época entre a meninada. Claro que, os pais da
gente compravam as revistas, Cruzeiro, Fatos e Fotos, Manchete, Veja dentre
outras. E, em casa, nós folheávamos tais revistas. Então, eu e minha irmã
Cristina vimos às propagandas das belas Monaretas. Ai meu filho, o aperreio foi
grande. - Mãe, eu quero uma bicicletas dessas aqui... -apontando para a
propaganda na revista O Cruzeiro - e minha irmã com o dedinho dela, apontando
do mesmo jeito, novamente: Eu quero, eu quero, eu quero... O dia todinho entrando
a noite adentro... A mamãe que era toda pra "frentex" com seus olhos
azuis, com cílios postiços e cabelos loiros tipo Marilyn Monroe, cheia de
charme só queria ver as novidades dos cabeleireiros, os perfumes e as maquiagens.
- Porque afinal... Ser esposa de um bancário do BB (Banco do Brasil) em Camocim
naquela época. Ufa! Nossa, era demais-. Minha mãe respondeu de pronto: -
Meninos, seu pai vai chegar do trabalho, então... Eu converso com ele. -Agora,
eu tenho que fazer o almoço vai tirar as fardas do colégio, tomar banho e
brincar com os seus brinquedos na sala de visitas. Eu e a Cristina fomos para o
quintal brincar com o Nino o nosso gato de estimação. Começamos a conversar
sobre as tais bicicletas. -Olha Criss... Eu quero a azul e tu? Claro Ricardo,
eu quero a róseo. Até porque só tem essas duas cores. Começamos a rir. O tempo
passou e o papai chegou do banco naquela correria. (Suado, fedorento a dinheiro
velho e a tinta de carimbo). -Coisa de Banco-. Depois que ele almoçou uma
peixada de pargo com batatas-inglesas e um arroz a grega feito a capricho foi
escutar no seu Rádio Capelinha PT 76 da Semp o Programa da Rádio Globo que
sempre escutava naquela hora. O programa era do Haroldo de Andrade, também, as
noticias do futebol, porque amava o Clube de Regatas Flamengo do Rio de
Janeiro. Após tudo isso ia tirar a sua sesta na rede de tucum que ficava na
sala de jantar. Sim, e as desejadas, amadas bicicletas Monaretas? Bem, eu e a
Cristina ficamos de guarda com os olhos duros, sentados nos nossos colchões em
nossos quartos a espera do papai Narciso acordar. Ansiosos, fomos averiguar
diretamente "in loco" se acordou. Entretanto, roncava como um porco
barrão. - Psiu! Silencio, asseverou a Cris... Respondi afirmando positivo com o
dedo polegar pra cima, Psiu! Silêncio falando baixinho, respondi. O tempo
passou deu 14 horas, e de repente levantou-se às pressas. - Meu Deus está em
cima da hora de ir ao Banco. Arrumou-se todo e eu no pé dele e ele de rabo de
olho, olhando pra baixo e perguntando. O que é que tu queres menino? Eu respondi: - Pai eu quero uma Monareta! Sim,
eu e a Cristina. -E o que é isso? Monareta? Respondi de pronto: - É um tipo de
bicicleta muito bonita. Ele perguntou: - Já falou com sua mãe! Nós
respondemos:- Sim... Em alta voz. Ele compadecido com as nossas carinhas de
anjo disse:- Vejam, eu prometo que vou conversar a noite com a Agmar e daremos
a resposta final para esse fim. Agora, eu tenho que trabalhar. Então, se
levantou de sua cadeira predileta e foi pelo corredor até a porta de saída de
casa. O tempo passou, passou, passou... E então... O Natal chegou. - Ah a
terrinha do pote respirava o Natal, o trem ia e vinha da estação com o seu som
peculiar do sino que batia: blém, blém, blém, blém... Tanto na chegada, como na
saída lotado de camocinenses ansioso para fazer as compras em Sobral, já outros
iam todos para Fortaleza mesmo. Às vezes a linha ferroviária colocava três
trens extras para dar vazão a tanta gente. Os ônibus da empresa Macaboqueira saiam
da frente da estação lotadas de passageiros para os municípios vizinhos, O
Mercado Pinto Martins fervilhava de transeuntes e curiosos que vinham conhecer
a cidade como também fazer compras de materiais de pesca, artesanais, roupas e
alimentos. À Igreja do Bom Jesus dos Navegantes toda iluminada e preparada para
os festejos do Natal, porque a Igreja é a alma de todos os Natais da Terra e
devido a isso o Padre Inácio já em suas homilias preparava o povo para mais um
nascimento de Jesus menino para todos os camocinenses. -Que ansiedade positiva
o povo passava- Bem, como sempre na véspera o papai botou todo mundo pra dormir
e no outro dia acordamos cedo com uma barulheira danada que vinha da sala. E
ali na sala tinha uma árvore de Natal feito artesanalmente pela minha mãe.
Feita de galhos tirados dos mangues do "outro lado" que a mamãe
enfeitou com algodões, bolas natalinas, estrelas do mar, búzios e conchas
marinhas de todos os tamanhos. Então eu, a Cristina, a Daulis que era ainda uma
"picurrucha" de apenas três aninhos e o Ulisses de um aninho apenas, foi
todos ver os presentes trazidos pelo papai Noel. E ali estavam as duas Monaretas
Caloi encostadas na parede da sala. Uma azul e a outra rósea. Como nós pedimos.
Depois do café da manhã fomos voados para a pracinha do amor para pedalar a
beça. - Ah que tempo bom da minha infância em Camocim.
Ricardo Narciso da Rocha
16/08/2017
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