SONHO MORFEU
Ricardo Narciso da Rocha
Noite estrelada e unicamente eu preciso
muito vislumbrar
A flor que eu escolhi nas horas que
passam eternamente...
Um amor que encontrei em um sonho
navegando nas ondas do mar
E nesse divagar de sonhos-pensamentos, clarificam
a mente
Os relâmpagos de um aluvião... Iluminam-te num pomar.
Pomar das macieiras, dos morangos, das
parreiras verdejantes
Com suas uvas verdes esmeralda que
brilham incessantemente.
E eu entorpecido nesse sonho mórfico, escabroso
e agonizante
Vejo-te correndo por entre as folhas e
frutos ininterruptamente,
Procuro-te e te encontro dentro dos teus
olhos deslumbrantes.
Olhos com as íris dilatadas, fixadas nas
fendas do meu nariz,
No ínterim de tempo e no espaço em que
vaga lentamente
A sua alma que saiu decrépita no futuro
que decerto feliz.
Deixei as minhas mãos atravessarem seu
cabelo piamente,
Resolutivo e já entregando para Deus a
amada Flor de Liz.
- Oh Flor de Liz eu te beijo, eu te
abraço no meu colo amavelmente
Nessa noite de lua cheia, cinzenta,
enuviada e invernosa... -Não se vá!
Como que uma despedida naquela total dor...
Inexoravelmente
Deitados na cama de folha orvalhada os
dois corpos nus, um par,
Dormem, dormem... No sonho Morfeu, quase
que real, literalmente.
E o real foi surgindo novamente para
afastar de uma vez a morte,
Morte que foi derrotada pela vitória do
amor, da vida extrapolada,
Metamorfoseada, ressuscitou sua amada
num lapso de sorte,
Os dois saíram das matas, dos parreirais
inebriantes, ela obnubilada,
Ele esperançoso, ambos retornam desse
sono-sonho muito forte.
E os dois acordaram do profundo sono, é
a realidade concreta.
Os dois se olham, se abraçam no leito do
seu quarto, já matutino,
Confraternizam a realidade de suas vidas
verdadeiras e discreta.
Novamente olham-se, enquadrando um olhar
profundo de tino,
Ambos se amam se entrelaçam
espiritualmente, - é a vida correta -.
Zé
Dos Santos um herói da RFFESA
O
“homem de ferro” literalmente é o que podemos definir sobre o Senhor José
Ferreira dos Santos, (Zé dos Santos), que praticamente, nasceu, cresceu e ainda
vive dentro dos seus 103 anos de idade (Um homem centenário) no âmago da
RFFESA. E, podemos, até dizer, que: Dentro do seu sangue corre os trilhos do
trem que sempre chegava ao seu horário na estação de Camocim. Uma figura
enigmática por conseguir congregar em torno de si toda uma família de
verdadeiros vencedores. Agora, eles venceram por causa da dureza e firmeza dos
propósitos desse nosso herói camocinense. Zé dos Santos, quando criança,
precisamente aos seis meses fez a sua primeira viagem de trem acompanhado do
seu pai, Antônio dos Santos que não podia parar de trabalhar, pois, estava a
serviço, deixou aos cuidados de uma Senhora, o mesmo. Um tempo memorável, onde
as estradas de ferro cresciam vertiginosamente, com o apoio da nova república,
claro, o nosso digníssimo Zé dos Santos já estava adolescente e o que é melhor,
o pai pôde lhe dar um emprego numa época de dureza, na própria estrada de
ferro. E, acredite, nosso herói começou a trabalhar aos dezesseis anos,
gratuitamente, sem receber nenhum centavo por mais de um ano. Depois, ele
conseguiu engajar verdadeiramente como um ferroviário. Recebendo o seu primeiro
salário. Acendeu, fazendo concursos internos e casou-se ainda novo, tendo
quatro rebentos. Porém, a vida tem os seus reveses, Deus lhe tirou a bem-amada.
Ele teve o ônus de cuidar de quatro crianças sozinho. No caso, eles são: Efigênia,
Fátima, José Sarto e Francisca. Depois de namorar algumas pretendentes ele se
enamorou com a futura Senhora Santos, Margarida, era o seu nome, o seu grande
amor. Evidente, que estamos escrevendo sobre um homem viril e, portanto, com a
Senhora Margarida, teve sete filhos. Tadeu, Avelar, Augusto, Rosa, Vicente,
Minerva e Ângelo Roncali. Todos foram educados dentro de um padrão rígido,
militarista, porque Zé dos Santos gostava da retidão, do patriotismo, da
honestidade, do pudor e temor a Deus. É tanto que, três filhos seus são,
oficiais militares. O grande Coronel dos Bombeiros do Estado do Ceará, José
Sarto, o Augusto, oficial da aeronáutica, Vicente, oficial da polícia militar
do Ceará. Todos se formaram e são cidadãos exemplares, engenheiro, geógrafo,
biólogo, médico, advogado e professores. Entretanto, um homem tem suas
fraquezas, tem suas distrações, seus apuros, seus medos e como não poderia
dizer: Seus momentos de heroísmo. E Camocim era nessa época chamada de a Veneza
do Ceará porque tinha um balaústre lindíssimo que protegia a cidade das ondas
do mar, havia ares de “belle époque”, a la França, com a mais completa e bonita
estação de trem do Nordeste. E, que, foi inaugurada na época do imperador D.
Pedro II. Após, veio, também, a aviação da Panair do Brasil com seus grandes
aviões Catalinas que aterrizavam nas águas do rio Coreaú. Foi o auge de uma
cidade que dava indicações de grande progresso. E o nosso querido Zé dos Santos
gostava de jogar uma sinuquinha no Bar do Dedim ali em frente à praça da
estação, bebia uma aguardente branquinha, enquanto jogava conversa fora com os
velhos amigos como Agnelo Campos, Valmir Pinto e o Dourado. No Camocim Clube,
com o Fernando Trevia, diretor do mesmo, bebia umas e outras para depois voltar
pra casa beijar a mulher e as crianças, tomar um banho e ir criteriosamente à
missa todos os dias no cair da noite. Tinha estimada amizade com o Artur
Queiroz, pois passava horas jogando sinuca apostada e ouvindo na velha radiola,
Vicente Celestino, Anísio Silva e Nélson Gonçalves. Tinha os seus critérios
relativos à política, gostava dos “camisas verdes” (Integralistas) e
geralmente, ia para a casa da Senhora Sinhá Trévia escutar no rádio da mesma,
os discursos de Plínio Salgado. Em tempos vagos, como férias, licença prêmio e
ou licença por doença ele tirava um bom tempo para estudar e ler bons livros.
Era conhecido pelo vasto conhecimento, (autodidata), por isso, exercia uma
liderança junto aos ferroviários de Camocim. Na época das políticas, não pendia
nem para um lado, e não pendia, nem para o outro. Gostava de dizer que: “Não
puxo o saco de ninguém, e não preciso pedir nada a ninguém”. Conta-se que houve
um grande ato heróico realizado por Zé dos Santos, na sua juventude enquanto
trabalhava nos vagões entre as cidades de Sobral e Camocim, houve um
descarrilamento e muitos passageiros e companheiros ferroviários ficaram presos
nas ferragens. Quando o socorro chegou o próprio disse: Salvem todos eles e me
deixem por último. E assim, aconteceu. Esta é uma crônica de um homem que viveu
o seu tempo e soube tirar o melhor de todos os momentos. Por isso, Deus lhe
concedeu um tempo centenário como testemunho de que, a honestidade e a retidão
dos valores humanos, e patrióticos, valem à pena.
Ricardo Narciso da
Rocha
REBECA E O VENTO
Ricardo Narciso da Rocha
O tempo escurecido espalha um vento lúgrube,
Vento forte e frio, e poeirento rebate nas folhas, um farfalhar...
E os varais no quintal com os trapos, a chuva a molhar...
Não só as roupas, mas os sonhos de aquarela cor,
Da menina Rebeca que é uma linda boneca na choupana d'amor.
-Ah menina linda, loira dos olhos vivos, claros e azuis-
Ver o tempo passar na sua cadeira de balançar...
E, naquele momento, surge um vislumbrar
De novos dias, novas esperanças da menina boneca, bela...
Anda e se debruça no peitoral marmoreado da janela,
Aflita naquele já sereno fino, frio de mormaço
A espera do pai, e mãe que labutam na agricultura,
Ao avistar os seus, e aquelas boas, amáveis criaturas...
Rebeca vibra e grita dentro do seu bom coração.
-Graças a meu bom Deus meus pais já trazem o "pão"-,
Ela se agita olhando o pai já tirando à agulha da porteira,
Tangendo seus burricos, no caminho, cheios de espinheiras,
Rebeca corre, e tira da porta a tranca, abrindo à fechadura.
E o pai já sobe às escadas e tocando nas mãos bonitas e puras
Daquela filha única, expressão maior de seu grande amor.
Abraça-a, um
abraço que a rega, a
nutre, sua pequena flor.
28/07/2017